Sobre estar só e bem

  Depois de um ano já não é mais novidade. Sempre há algo novo, claro, mas o país já não parece outro planeta, a cultura diferente parece mais assimilável e o idioma ainda que sempre tenha algo a ensinar já te permite manter uma conversa, mesmo que o pub cheio e o som ambiente desafiem os ouvidos. 

Depois de um tempo você já fez grandes amizades e abraçou alguns deles nas despedidas da vida que um intercâmbio apenas torna mais recorrente. Vai o amigo, fica o imenso carinho por ter tido a oportunidade de conhecê-lo, afeto que agora se acumula a outros que também precisam ser mantidos a distância. 

É tempo de encarar a saudade com mais leveza, o skype com a família já não é uma vez por semana, acontece quando os lados podem ou se encontram online. Os grupos de amizade e os amigos nas conversas por whatsapp não precisam ser respondidos apressadamente. Os pontinhos vermelhos das conversas em espera podem sim esperar. Não é descaso, nem desencontro muito menos desafeto. O amor continua no mesmo lugar é só menos apego porque um dos pés que ficou no Brasil passa a pisar firme em outro continente. É preciso estar onde teus pés te levaram e deixar que a mente exercite viver o agora.

É tempo de estar só e aprender a usufruir bem do próprio tempo. Algo que só se faz enfrentando o dissabor da solidão, um exercício diário de você com você mesmo, vezes árduo, vezes melancólico, até que no vira e mexe dos ponteiros se mostra doce. É que se ocupar de preencher os próprios vazios acalenta a alma e é um ganho pessoal. Como quem depois de percorrer grandes distâncias físicas, pouco a pouco desbrava um universo particular.

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Bray e Dalkey – Por isso, por ele, pelo bem que ele me faz

O Miller e o Dani são cu e calcinha, do tipo “onde a vaca vai o boi vai atrás”. Conheci as figuras no meu primeiro dia em Dublin, no ínicio de novembro, eles estavam na mesma acomodação estudantil em que fui parar. Logo eu e o Mi começamos a estudar juntos no intermediário e o Dani foi pro upper. Coleguinhas de classe, começamos a preencher as quatro horas diárias de convivência com fofoquinhas e péssimas observações da vida alheia.

Minha mãe diz que é o sonho de toda mulher ter um amigo gay, pois eu já encontrei o meu! A verdade é que o Miller foge a estereótipos, e com ele posso divagar entre o mundo gay e hetero sem preconceitos.

Sei que nos aproximamos em horas de dificuldade, quando um ombro amigo em um país estranho é raro e essencial. Pois eu tentei ser pra ele o melhor que eu podia extrair de mim e acredito que ele fez o mesmo.

E porque amigo só pra se lamentar é muito chato, nossa amizade também se fortaleceu nas muitas e boas risadas, whatsapps pra atualizar os baphos, confissões quentíssimas, que fariam os velhinhos irishs sentados ao redor de nós no Spair Negro da Dame Street corar suas bochechas rosas.

Foi assim que ele se tornou meu loiro, divo, Laura do carrossel, as vezes mais mulherzinha do que eu, as vezes com uma visão do sexo masculino que me faz compreender melhor o sexo oposto. E para nossa alegria, jamais vamos cair no tapa por machos, ele gosta dos fortinhos, altos, eu fico com barbudos, nerds, hippies.

Por isso, por ele, pelo bem que ele me faz que eu posto aqui as fotos do sábado que passamos juntos em Bray e Dalkey, duas regiões que fazem parte de Dublin mas que ficam mais afastadas e se parecem mais com vilarejos. Nesse dia eu precisava de companhia e ele foi a companhia perfeita, com um astral maravilhoso do mais alto ponto do seu looping geminiano, a todo tempo preocupado que eu tivesse um lindo dia e tivemos.

Como nem tudo é perfeito, o Dani foi também e fui apresentada a uma amiga deles, por sinal muito chata, como é mesmo o nome dela? Maira…? Haha…É bem isso só que ao contrário! Em Bray pudemos aproveitar um dia lindo, batendo um super papinho e logo a Maira já estava me achando mais legal que o Dani e o Miller juntos. Aham. Senta lá, Cláudia.

Em Dalkey, um Dani em chilique cósmico pela nossa demora, nos levou para escalar uma montanha interminável, onde o meu mal humor de fome quase entrou em ação e só se aquietou quando chegamos no topo. Lá demos de cara com uma paisagem linda que valeu o esforço dos asmáticos e fumantes presentes na excursão.

Depois de mil fotos em todas as posições e cenários solicitados pelo Miller, eu não poderia deixar de compartilhar algumas aqui. Aproveitando pra dizer que Mi, você é foda, um dos corações mais lindos que já tive a oportunidade de conhecer, e que na Irlanda, no Brasil ou onde quer que for, você já faz parte dos amigos incríveis que eu quero levar pra sempre comigo.

Em Dalkey

Em Dalkey

 

Bray

Bray

 

Eu e Miller

Eu e Miller

 

Dalkey

Dalkey

 

Miller, eu e Dani, Maira não gosta de foto então é a pessoa atrás da camera

Miller, eu e Dani, Maira não gosta de foto então é a pessoa atrás da camera

 

Bray

Bray

 

foto ret

“Knackers” ou “naná” para os mais chegados

Sim, eu tenho medo de tirar fotos deles, por isso peguei fotos de um site que exemplifica muito bem quem são os knackers: http://modaparahomens.com.br/2011/09/15/mochilao-mph-marcas-e-pertencimentos/

Sim, eu tenho medo de tirar fotos deles, por isso peguei fotos desse site aqui.

Logo que você chega em Dublin, começa a ouvir falar dos “knackers” (pronuncia “naquers) ou “naná” para os mais chegados. É que como qualquer lugar do mundo, a Irlanda também tem seus problemas, e aqui no caso, trata-se de uma parcela da população de baixa renda, que pratica xenofobia com os estrangeiros. Isso, agência de viagem/guia de viagem nenhum te conta. Beijinho no ombro e descobre sozinha, bein.

O termo “knacker” é bem pejorativo e se refere a pessoas que tem como atividade dar fim a carne de animais mortos ou indesejados. Descobri também que é gíria pra testículos, mas o fato é que na Irlanda é o nome que se dá para pessoas de classe-baixa, que recebe ajuda do governo e tem comportamentos anti-sociais com os imigrantes. Isso tudo de acordo com o Wikipédia e o dicionário Oxford 😉 Mas não ouse pronunciar “knacker” ou “naná” na rua, eles sabem que é com eles, foi o que me contaram e resolvi não pagar pra ver.

Pra encurtar a história, esse comportamento anti-social pode ser uma enxurrada de xingamentos, tacar um ovo em você, uma cuspidinha básica ou algo mais grave como roubar e agredir. Seriam o mais próximo dos nossos trombadinhas, mas num modo muito mais moderado, porque na Irlanda o porte de armas é proibido e levado a sério.

Brinco que eles costumam andar uniformizados, pois um típico “naná” é bem branquelo, loiro ou meio ruivo, as vezes careca e usa moletom e roupas adidas com a mesma frequência que uma funkeira usa roupa embalada a vácuo. Eles também costumam estar em áreas específicas da cidade, por exemplo a O’Connell Street, uma das ruas mais famosas daqui, que tem “naná” em cada esquina. Pensando nisso, um dos motivos de ter escolhido o endereço em que moro é justamente porque quase não vejo eles por aqui.

Outra forma de identificá-los é porque geralmente estão em grupos, as vezes bêbados e alterados, falando alto na rua e não é raro que estejam empurrando carrinhos de bebê. Ouvi dizer que eles recebem mais ajuda, quanto mais filhos tem, mas acho bem delicado entrar nessa questão das políticas assistencialistas, porque pesquisando, não consigo encontrar informações seguras a respeito, apenas blogs, e não quero ser mais uma falando abobrinhas. Coisas que o jornalismo te ensina!;)

Paranoica como sou, qualquer um de adidas é um naná em potencial pra mim. E aí sigo as dicas que me deram e que por enquanto tem sido super úteis, não encaro, se possível desvio deles disfarçadamente, do tipo “upis, vou ali ver uma vitrine e já volto”. Até então tem funcionado bem. Pode ser exagero, mas vou achar o meio termo aos poucos, assim como foi em São Paulo, assim como o bom senso pede.

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