Tempo de agradecer

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O tempo aqui eu contava em meses, no início apressada como quem não via a hora de voltar pra casa. Aos poucos Dublin foi se tornando querida pra mim, uma casa, um lar.

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Hoje completo um ano na Irlanda o que significa também um ano fora do Brasil. Um ano sem o convívio com amigos, sem poder encontrar minha irmã de tempos em tempos, sem rever meus pais com quem me reconciliei depois de anos de rompimento.

Lembro que entre todos os devaneios de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, a frase que mais me marcou desse livro foi: “o que a vida quer da gente é coragem”. E cada um sabe onde ela lhe pede.

Cheguei no outono passado, dava 4:30 da tarde e já estava tudo escuro. Não era só a cidade estranha, mas a língua, dava medo arriscar o inglês, frustrava muito não entender, não ser entendida. Mesmo que a infraestrutura, transporte público, educação no trânsito, problemas sociais aqui sejam mesmo de primeiro mundo, eu só conseguia me sentir perdida, uma estranha no ninho. Faltava tempo e boa vontade da minha parte pra encontrar a beleza em tudo o que me parecia pouco familiar.

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Vim pra estudar inglês, e nos quatro primeiros meses só fiz isso, numa rotina de pelo menos quatro horas na escola e mais uma a duas horas em casa, entre homeworks e estudos por contra própria. Um revival da gordinha CDF que fui nos tempos da 4ªD. Ok, se era a 4ªD mesmo, nem a Amanda e a Ju, minhas amigas da velha guarda vão lembrar.

Depois desse tempo, passei a me sentir mais confiante e senti falta de poder praticar mais o inglês, não só na sala de aula em conversações previsíveis. Então tava na hora de ir trabalhar, mas por aqui, como sou jornalista, trabalhar na minha área sem um ótimo domínio do inglês, é algo improvável. Logo, para a turma dos não europeus, com raras exceções você será uma aspirante a nanny, cleaner, entregador de jornal, kitchen porter ou algo do tipo.

Por isso, deixe seu orgulho de lado e vista a camisa. Abrace a empreitada, todo trabalho é digno e tem muito a ensinar. No meu caso, deixei o Brasil no meu melhor momento profissional, depois de uma dura jornada coordenando a pesquisa de um programa de televisão. Embora puxado, eu amei a experiência, mas sempre soube que na carreira o inglês era meu calcanhar de Aquiles e cedo ou tarde ia fazer falta ou me fazer estagnar.

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Foi assim que passei a enviar currículos pra cuidar de crianças, algo que sei fazer e faço com gosto. Chame de nanny, au pair, childminder…Tem vários jeitos e com algumas diferenças no que a família acorda contigo, mas em geral, nada mais é que ser babá.

Por pouco mais de três meses, cuidei da Ella, 2 anos e meio, do George com 6 e do Ben de 9. Desde o primeiro dia nos demos bem, uma sintonia nossa. A rotina, era pesada, pega todo mundo na escola, leva pra natação, pro tennis, pro futebol gaélico, pra aula de música, volta, agora faz comida, dá o jantar, bedtime, caramba acabou a semana pra começar tudo outra vez na segunda seguinte. “George não bate na Ella”, “Ben deixa a Ella usar o tablet”, “George espera um pouquinho, o jantar tá quase pronto”. Um piscar de olhos e alguém pode cair, começar a brigar, tomar o brinquedo da mão do outro. Deixei de cuidar deles com a sensação de dever cumprido e consciência de que fiz o meu melhor.

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E desde julho cuido de uma “Snow White” de 4 anos, a Lucy e sua irmã, “Cinderella”, que na verdade se chama Anna e tem um ano. É que a Lucy tem o cabelinho da Branca de Neve, curtinho e escuro e lindos olhos verdes. Já a Anna é uma loirinha de olhos azuis. Nossa relação é outro feeling desses que não se explica. Lucy é super carinhosa, adora livros e esta na fase dos “porquês”, enquanto a Anna, é uma menininha muito fofa e super fácil de cuidar.

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É assim que de segunda a sexta, oito horas por dia, treino o meu inglês e vou descobrindo novas palavras e expressões pra inserir no meu vocabulário. Fora os exercícios de improvisação, porque a qualquer momento você pode ter que explicar pra criança, a Lucy no caso, qual a diferença entre reflexo e sombra, porque é importante dizer por favor ou porque a irmã puxa os cabelos dela. Tanto que as vezes sinto falta do Telekid, personagem do Marcelo Tas no Castelo Rá-Tim-Bum, pra explicar essa infindável série de “Why?”, “Why”, “…but why?”.

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Foi assim que quando vi, passaram-se seis meses, depois oito, depois doze. E nesse meio tempo sempre que pude viajei, fui pra lugares que nem imaginava que iria, e é um tal de sentir-se um grãozinho de areia nesse mundão de Deus. Descobri o prazer de andar de bike e sentir o vento na cara, fiz amigos brasileiros e de outros cantos do mundo, exercitei o respeito ao próximo ao conhecer outras culturas através de uma conversa, uma comida, um costume diferente do meu. Disse até logo pra algumas pessoas sem saber quando e se voltarei a vê-los, aprendi a dar mais valor pra um dia de sol, um dia no parque, um dia de vida.

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Pois bem, estar aqui há 12 meses é sobreviver a saudade, ao frio, as crises de insegurança, a frustração de muitas vezes não saber se comunicar ou fazer isso com um vocabulário muito inferior do que eu gostaria. Sair da zona de conforto te faz crescer anos em meses e é uma bagagem de vida imensurável. Obrigada Dublin, Irlanda.

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My English’s pearls – Minhas pérolas em inglês

Pois bem, estando cá há nove meses e tendo chego com um inglezinho intermediário nível mixuruca, muitas melhorias vieram – graaaacias – mas já deu pra fazer uma pequena coletânea de pérolas e confusões.

Já que como diria McLuhan, aquele lá dos tempos das aulas de comunicação da professora Silvia, quando um emissor passa uma mensagem, ele nunca tem garantias de que será entendido exatamente como se pretendia, pelo receptor. Pois é, o caso fica mais grave quando voce já começa falando errado na língua que você não domina. O lado bom é que além de virar “causo”, ajuda a fixar pronúncias e aprender vocabulário.

Esse é um post a pedido da minha irmã, Nina e Kalinka e quem mais gosta de aprender com os próprios erros e os alheios, como os meus. Então se você encontrar algum erro na minha eventual translation, perdoa ai e conta pra mim.

 

 

Roommate:
– What’s your plans today? Is a beautiful sunny day, no?
Me:
– Well, I don’t have plans yet! Really nice day, hasn’t clothes today
Roommate:
– HASN’T CLOTHES TODAY??? Ah, clouds!!! For one minute I thought you dont wanted to wear clothes today!

Irish friend:
– So, how is Madô (Madeleine, my bike)?
Me:
– Well, I have to fix her, one of the wheels is pierced or fart (flag or fade, nunca lembrava desses verbos pra dizer murcho) !
Irish friend:
– Fart? Your bicycle farts?

Me:
– I can’t sleeeeeep!
Arnaud:
– Close your eyes!
Me:
– This doesn’t solves!
Arnaud:
– Counting sheeps.
Me:
– I learnt that there’s not “sheeps”, you have to say just “sheep”. Like “fish”, there’s not “fishes”. I’m sure about that, my Irish teacher teached me.
Arnaud, my French friend, probably almost falling sleep:
– Ãh? Do you want “fish and chips”? *

*fish and chips é um típico prato que nada mais é que peixe adore e batata frita. “Chips” no inglês britânico é o equivalente pra batata frita que no inglês americano aprendemos “french fries”. Fato é que ou o Arnaud tava com muito sono ou a minha pronúncia maravilhosa pra explicar que não existe plural pra ovelha “sheeps” soou mesmo como “chips”.

My ex-boss:

– Luciana, do you picked up your change? (Talking about my payment)

Me:
– Change? No…(entendendo troco)
My ex-boss:
– My God! So, where’s the money…?! (Starting getting desperate)
Me:
– Let me explain. I picked up the money, all the money, but I didn’t know that I would have to give back a change…
Her husband:
– No! The confusion is because she told “change” and that’s a informal word to say money, cash…it’s not change, when you have to give back some money…
E foi assim que eu fiquei com o meu salário todo sem dar o troco pra ninguém porque afinal não tinha troco.

Me:

– wait a moment.

Kids:
– Lucy, you have to say “wait one minute”, cause “wait a moment” I can understand that you will do I wait you for a long time and not a short time, as you want to say.

Me: 

– Then, she broke up with me.

Roommate:

– She? Are you lesbian? *

* clássica confusão na hora de usar he – his, she-her…Até hoje conto umas histórias atravessadas de vez em quando.

 

After e depois e a arte da sedução

Já tem um tempo que penso em montar um post com dicas de alguns aplicativos e sites que tem me ajudado a dar um gás no inglês, mas fica pra depois, que hoje eu mooorri com o app LinguaLeo!

É que eles imortalizaram a Christiane Torloni, sim a mesma do “Hoje é dia de rock, bebê”, usando um antes e depois da diva pra ilustrar a palavra after! E o app ainda me pergunta se eu me lembro da palavra? Mesmo que eu não soubesse o que era after, depois desse exemplo, não tem como esquecer!

Melhor que isso foi descobrir que o app tem uma seção de frases prontas de acordo com um determinado assunto, inclusive “sedução”. Claro que eu fui fuçar – por que, não? – e descobri que deixa o “samba do approach” do Zeca Baleiro no chinelo. É um show a parte de frases sensuais do tipo “Your smile makes a bright day even brighter”, e acreditem, só melhora! Agora sim que eu descolo um gringo, hein? A-ham!

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Um cantinho pra chamar de meu

Maria Lola no colo

Maria Lola no colo

Porque nos últimos dias, se eu já valorizava, passei a valorizar ainda mais a importância de ter um lugar aqui, que seja o mais próximo de um lar. Sim, um lugar que eu pudesse finalmente desfazer minhas malas e pensar em uma rotina de estudos, enfim, dos objetivos traçados.

Depois de muito procurar, ontem me mudei para Dublin 8. Estou dividindo o apartamento com um casal muito gentil e minha roommate é uma espanhola, gente finíssima, que fala inglês super bem. Estou adorando praticar meu macarrônico inglês com ela e quando não encontramos a palavra certa em inglês, partimos pro portunhol. ¿Sí, porque no?

Era pra ser, porque eu andava feito mala de louco de uma residência pra outra e deixei de vir conhecer a vaga anunciada pelo casal duas vezes por conta de imprevistos. Aí, sem saber, acabei respondendo um anúncio da moça que estava passando a vaga e eis que… Tcharans, fui perceber que se tratava da mesma vaga que eu não tinha conseguido vir visitar antes.

Isso depois de me deparar com cada vaga! Minha nossa senhora dos cantinhos bizarros…Cada república, cada superlotação de beliche! Naim, naim, naim, muito obrigada, preciso só de um ambiente tranquilo, um cantinho assim pra chamar de meu, mesmo que não haja canto melhor que estar ao lado dele e com a gatinha Lola se afofando no meu colo.

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