Sobre estar só e bem

  Depois de um ano já não é mais novidade. Sempre há algo novo, claro, mas o país já não parece outro planeta, a cultura diferente parece mais assimilável e o idioma ainda que sempre tenha algo a ensinar já te permite manter uma conversa, mesmo que o pub cheio e o som ambiente desafiem os ouvidos. 

Depois de um tempo você já fez grandes amizades e abraçou alguns deles nas despedidas da vida que um intercâmbio apenas torna mais recorrente. Vai o amigo, fica o imenso carinho por ter tido a oportunidade de conhecê-lo, afeto que agora se acumula a outros que também precisam ser mantidos a distância. 

É tempo de encarar a saudade com mais leveza, o skype com a família já não é uma vez por semana, acontece quando os lados podem ou se encontram online. Os grupos de amizade e os amigos nas conversas por whatsapp não precisam ser respondidos apressadamente. Os pontinhos vermelhos das conversas em espera podem sim esperar. Não é descaso, nem desencontro muito menos desafeto. O amor continua no mesmo lugar é só menos apego porque um dos pés que ficou no Brasil passa a pisar firme em outro continente. É preciso estar onde teus pés te levaram e deixar que a mente exercite viver o agora.

É tempo de estar só e aprender a usufruir bem do próprio tempo. Algo que só se faz enfrentando o dissabor da solidão, um exercício diário de você com você mesmo, vezes árduo, vezes melancólico, até que no vira e mexe dos ponteiros se mostra doce. É que se ocupar de preencher os próprios vazios acalenta a alma e é um ganho pessoal. Como quem depois de percorrer grandes distâncias físicas, pouco a pouco desbrava um universo particular.

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No balancê, balancê

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Eu, Ale, Carol e Miller no dia 13 de julho, vulgo meu aniversário

Acredito em horóscopo só quando leio coisas boas, mas resolvi chamar de inferno astral o momento em que como num efeito dominó, me vi sem emprego, sem lugar pra morar, vivendo as angústias de problemas de saúde com pessoas queridas, Madô (minha bike) com pneu furado e decidida a não engatar mais nenhuma marcha e um computador que me largou na mão de vez.

Aí quando bateu aquela vontade de me lamentar, pela primeira vez na minha vida talvez, juntando tudo o que chegar aos 25 deu pra aprender, levantei a cabeça e fui correr atrás de resolver o que podia e ser positiva pra o que não estava ao meu alcance solucionar. Conforme as coisas entravam nos eixos, a vontade de chorar e de me vitimizar foi passando ou talvez se transformando em risadas, piadas que passei a fazer sobre a arte de estar na merda.

Até que os vinte e tantos vieram, pra virar a página e celebrar minhas pequenas vitórias pessoais. Porque apesar de ter saído da casa dos meus pais ao 17, sempre vivi o vício da dependência emocional, colocando o peso dos meus problemas na conta dos outros e na hora do desespero, reagia me atirando no chão do supermercado da vida pra fazer o escarcéu que meus pais nunca me deixaram fazer durante a infância.

Tudo bem que certos defeitos a gente leva uma vida pra mudar um tiquinho, mas tenho pra mim, que sempre é tempo. Embora eu já tenha tentado justificar os meus “pondo na conta dos meus pais”, como também já tentei repetir frases do tipo “eu sou assim e que me aceitem”. Mas putz, como é bom mudar pra você, com toda a força que só o amor proprio é capaz.

Repito pra quem pergunta como vai a vida aqui, que é investimento, que o inglês é só uma das batalhas diárias, o mais bonito e árduo é o autoconhecimento, uma bagagem pessoal e que ninguém te tira. Repito porque na verdade, preciso reforçar isso até pra mim mesma as vezes. Afinal é duro pular fora da zona de conforto, mas tem seus ganhos.

bolinho na casa do Jorg

bolinho na casa do Jorg

Cresci anos em meses, descobri em mim forças que sempre achei bonitas nos outros, mas nunca achei que as veria em mim. Uma paz de espírito, um tal de estar bem comigo, de me perdoar pelas minhas falhas, sem deixar de fazer uma autoanálise. Por isso na minha retrospectiva pessoal, o Sérgio Chapelin poderia narrar que aos 25 eu já tinha aprendido a gostar de São Paulo, tinha feito o meu círculo social por lá e mantinha as boas e velhas amizades. Vivia um projeto a dois crente que era pra sempre, chegava em casa e era recebida pelos charminhos da Lola, minha gata, morria de medo de voltar pra casa a pé a noite, nao falava com meus pais, era angustiada, ansiosa e insegura.

Aos 26 eu descobri o mundo e como ele é bão, Sebastião! Mantenho as amizades que valem a pena, fiz novos e bons amigos alguns de outros cantos, sambando miudinho no inglês ou no espanhol. Voltei a falar com meus pais num processo de respeitar quem são e como são e sentir que isso é recíproco. Comprei uma bici achando que era só pra me deslocar e aprendi a amar o vento na cara e com ela volto a hora que quero sem medo e sem neuras. Encontro uns gatinhos soltos nas ruas de Dublin e faço um chamego pra acalmar a saudade da Lolinha,  e ainda nao fiz nem a metade das viagens que gostaria, mas tudo a seu tempo. A angústia, a ansiedade e a insegurança não me abandonaram, mas diminuíram, entramos numa política de boa convivência, ok vocês existem, mas sou eu que tô no controle.

E pondo tudo na balança, vejo que o saldo é positivo, porque mesmo depois dos perrengues passados, a escadinha rumos aos trinta, veio suave, veio bonita, fechando um ciclo, abrindo outro. Talvez seja esse período fora da minha zona de conforto, longe do meu país, do meu círculo social, da minha língua, da minha profissão, esse período fora, que eu não decidi quando termina e se termina…talvez seja eu, que decidi dar as caras, vir e me permitir esse aprendizado… só sei que tudo isso tem feito um bem, que suspeito estar vivendo o melhor momento da minha vida.

 

Colcha de retalhos

Abaixo recortei pequenos carinhos que vim recebendo nos últimos tempos. Uma colcha de retalhos feita de frases e afagos que superam a distância, cruzam o oceano e chegam aqui nessa ilhazinha que inventei de me refugiar. A quem se importa, obrigada por se importar, vou bem e tô ficando perita em ficar muito melhor!

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