Sobre estar só e bem

  Depois de um ano já não é mais novidade. Sempre há algo novo, claro, mas o país já não parece outro planeta, a cultura diferente parece mais assimilável e o idioma ainda que sempre tenha algo a ensinar já te permite manter uma conversa, mesmo que o pub cheio e o som ambiente desafiem os ouvidos. 

Depois de um tempo você já fez grandes amizades e abraçou alguns deles nas despedidas da vida que um intercâmbio apenas torna mais recorrente. Vai o amigo, fica o imenso carinho por ter tido a oportunidade de conhecê-lo, afeto que agora se acumula a outros que também precisam ser mantidos a distância. 

É tempo de encarar a saudade com mais leveza, o skype com a família já não é uma vez por semana, acontece quando os lados podem ou se encontram online. Os grupos de amizade e os amigos nas conversas por whatsapp não precisam ser respondidos apressadamente. Os pontinhos vermelhos das conversas em espera podem sim esperar. Não é descaso, nem desencontro muito menos desafeto. O amor continua no mesmo lugar é só menos apego porque um dos pés que ficou no Brasil passa a pisar firme em outro continente. É preciso estar onde teus pés te levaram e deixar que a mente exercite viver o agora.

É tempo de estar só e aprender a usufruir bem do próprio tempo. Algo que só se faz enfrentando o dissabor da solidão, um exercício diário de você com você mesmo, vezes árduo, vezes melancólico, até que no vira e mexe dos ponteiros se mostra doce. É que se ocupar de preencher os próprios vazios acalenta a alma e é um ganho pessoal. Como quem depois de percorrer grandes distâncias físicas, pouco a pouco desbrava um universo particular.

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Aproveitando o gancho do St. Patricks Day e os últimos dias bonitos que tem feito em Dublin com a chegada da primavera, eu e menina Carolina corremos rua fazendo vídeos pro quadro “Mulheres pelo mundo” do programa Mulheres, na TV Gazeta! Beijo Kátia Fonseeeeeeeca! Beijo Mamma Bruschetta!

Claro que não precisa me conhecer muito pra perceber que não sou um talento nato na frente das câmeras, já que desde as aulas de telejornalisno eu as evitava! Ainda sim, te cuida Kalinka Schutel! 

Mas fica aí um registro do nosso olhar, meu e da Caro e um pouquinho do muito que Dublin tem pra contar. Quem quiser encurtar caminho, pula pros 9:20 e assiste o nosso vídeo! 

Enquanto isso vou inserindo aqui os outros beijos que a edição cortou, brinks…

Beijo, Caro, amiga linda que essa cidade me fez conhecer (e o Miller também).

Um beijo pro meu pai, que teve a manhã de cortar os dedos no cortador de grama ontem, beijo pra minha mãe, que é a avó mais linda do norte do Paraná, beijo pra minha irmã e pro Léo, meu sobrinho-afilhado que ainda nem conheço mais já carrego no coração!

http://youtu.be/bksJxyaPa_U

Tempo de agradecer

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O tempo aqui eu contava em meses, no início apressada como quem não via a hora de voltar pra casa. Aos poucos Dublin foi se tornando querida pra mim, uma casa, um lar.

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Hoje completo um ano na Irlanda o que significa também um ano fora do Brasil. Um ano sem o convívio com amigos, sem poder encontrar minha irmã de tempos em tempos, sem rever meus pais com quem me reconciliei depois de anos de rompimento.

Lembro que entre todos os devaneios de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, a frase que mais me marcou desse livro foi: “o que a vida quer da gente é coragem”. E cada um sabe onde ela lhe pede.

Cheguei no outono passado, dava 4:30 da tarde e já estava tudo escuro. Não era só a cidade estranha, mas a língua, dava medo arriscar o inglês, frustrava muito não entender, não ser entendida. Mesmo que a infraestrutura, transporte público, educação no trânsito, problemas sociais aqui sejam mesmo de primeiro mundo, eu só conseguia me sentir perdida, uma estranha no ninho. Faltava tempo e boa vontade da minha parte pra encontrar a beleza em tudo o que me parecia pouco familiar.

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Vim pra estudar inglês, e nos quatro primeiros meses só fiz isso, numa rotina de pelo menos quatro horas na escola e mais uma a duas horas em casa, entre homeworks e estudos por contra própria. Um revival da gordinha CDF que fui nos tempos da 4ªD. Ok, se era a 4ªD mesmo, nem a Amanda e a Ju, minhas amigas da velha guarda vão lembrar.

Depois desse tempo, passei a me sentir mais confiante e senti falta de poder praticar mais o inglês, não só na sala de aula em conversações previsíveis. Então tava na hora de ir trabalhar, mas por aqui, como sou jornalista, trabalhar na minha área sem um ótimo domínio do inglês, é algo improvável. Logo, para a turma dos não europeus, com raras exceções você será uma aspirante a nanny, cleaner, entregador de jornal, kitchen porter ou algo do tipo.

Por isso, deixe seu orgulho de lado e vista a camisa. Abrace a empreitada, todo trabalho é digno e tem muito a ensinar. No meu caso, deixei o Brasil no meu melhor momento profissional, depois de uma dura jornada coordenando a pesquisa de um programa de televisão. Embora puxado, eu amei a experiência, mas sempre soube que na carreira o inglês era meu calcanhar de Aquiles e cedo ou tarde ia fazer falta ou me fazer estagnar.

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Foi assim que passei a enviar currículos pra cuidar de crianças, algo que sei fazer e faço com gosto. Chame de nanny, au pair, childminder…Tem vários jeitos e com algumas diferenças no que a família acorda contigo, mas em geral, nada mais é que ser babá.

Por pouco mais de três meses, cuidei da Ella, 2 anos e meio, do George com 6 e do Ben de 9. Desde o primeiro dia nos demos bem, uma sintonia nossa. A rotina, era pesada, pega todo mundo na escola, leva pra natação, pro tennis, pro futebol gaélico, pra aula de música, volta, agora faz comida, dá o jantar, bedtime, caramba acabou a semana pra começar tudo outra vez na segunda seguinte. “George não bate na Ella”, “Ben deixa a Ella usar o tablet”, “George espera um pouquinho, o jantar tá quase pronto”. Um piscar de olhos e alguém pode cair, começar a brigar, tomar o brinquedo da mão do outro. Deixei de cuidar deles com a sensação de dever cumprido e consciência de que fiz o meu melhor.

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E desde julho cuido de uma “Snow White” de 4 anos, a Lucy e sua irmã, “Cinderella”, que na verdade se chama Anna e tem um ano. É que a Lucy tem o cabelinho da Branca de Neve, curtinho e escuro e lindos olhos verdes. Já a Anna é uma loirinha de olhos azuis. Nossa relação é outro feeling desses que não se explica. Lucy é super carinhosa, adora livros e esta na fase dos “porquês”, enquanto a Anna, é uma menininha muito fofa e super fácil de cuidar.

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É assim que de segunda a sexta, oito horas por dia, treino o meu inglês e vou descobrindo novas palavras e expressões pra inserir no meu vocabulário. Fora os exercícios de improvisação, porque a qualquer momento você pode ter que explicar pra criança, a Lucy no caso, qual a diferença entre reflexo e sombra, porque é importante dizer por favor ou porque a irmã puxa os cabelos dela. Tanto que as vezes sinto falta do Telekid, personagem do Marcelo Tas no Castelo Rá-Tim-Bum, pra explicar essa infindável série de “Why?”, “Why”, “…but why?”.

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Foi assim que quando vi, passaram-se seis meses, depois oito, depois doze. E nesse meio tempo sempre que pude viajei, fui pra lugares que nem imaginava que iria, e é um tal de sentir-se um grãozinho de areia nesse mundão de Deus. Descobri o prazer de andar de bike e sentir o vento na cara, fiz amigos brasileiros e de outros cantos do mundo, exercitei o respeito ao próximo ao conhecer outras culturas através de uma conversa, uma comida, um costume diferente do meu. Disse até logo pra algumas pessoas sem saber quando e se voltarei a vê-los, aprendi a dar mais valor pra um dia de sol, um dia no parque, um dia de vida.

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Pois bem, estar aqui há 12 meses é sobreviver a saudade, ao frio, as crises de insegurança, a frustração de muitas vezes não saber se comunicar ou fazer isso com um vocabulário muito inferior do que eu gostaria. Sair da zona de conforto te faz crescer anos em meses e é uma bagagem de vida imensurável. Obrigada Dublin, Irlanda.

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Short Trip: Stonehenge ou em busca das pedras gigantes

Quando Cristo nem pensava em nascer, alguns habitantes da Grã-Bretanha tiveram a ideia de carregar pedras, que variam de 4 a 25 toneladas, pra Salisbury, (aprendemos que pronuncia SALsbury, esquece a letra I) uma cidadezinha no sul de UK.  Formando assim círculos concêntricos de pedras chamado Stonehenge (stone: pedra e hencg: eixo, no inglês arcaico).

As famosas bonitinhas

As famosas bonitinhas

pequenininhas, encima da minha cabeça

pequenininhas, encima da minha cabeça

Pois bem, esse foi o destino que escolhemos pra viajar, Maria e eu, eu e Maria, minha Mary Poppins, roommate, abuelita e amiga. Chegamos no aeroporto de Bristol no dia 22 de junho pela manhã e de lá pegamos um trem para Salisbury , que leva cerca de uma hora. Assim que chegamos, descobrimos um pequeno detalhe. Excepcionalmente naquele dia nao havia ônibus turístico algum que nos levasse para conhecer Stonehenge.

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Eu e Mary

Eu e Mary

 

O motivo? O solstício de verão no hemisfério norte ocorre no dia 21 de junho, e é também o dia mais longo do ano. Nesse dia o Sol nasce exatamente sobre a pedra principal de Stonehenge, e por essa razão Druídas, Wiccans, neo-Hippies e simpatizantes tem como tradição reunirem-se para celebrar o fenômeno. A festa deste ano reuniu mais de 30 mil pessoas e durou até a manhã do dia 22 de junho, horas antes de nos darmos conta que chegamos tarde demais pra festa que nem sequer sabíamos.

solstício em Stonehenge

solstício em Stonehenge

“Que voy conocer Stonehenge o sí o sí”, bateu o pé a espanhola arretada. Na falta dos ônibus turísticos comuns que fazem o trajeto para Salisbury e Old Sarum ida e volta por £26, negociamos com um taxista por £40, ida e volta também, para conhecer os dois pontos.

Papo vai, papo vem, o taxista nos pergunta o que fazíamos em Dublin. Maria explicou sobre ela e eu resumi que tinha vindo com o objetivo de melhorar o inglês. ” Did you choose Dublin to learn English? Are you craaaaazy?”…Já comentei aqui a richa histórica entre britânicos e irlandeses, colonizadores e ex-colonizados, mas a brincadeira tinha muito mais a ver com a dificuldade que é entender o acento irish e fui obrigada a rir e concordar.

Ao lado da rodovia, depois de mais de 15 min de caminhada, pequenas pedrinhas vistas de longe tornaram-se as ilustres gigantes que são, quando finalmente pudemos vê-las de perto. É um exercício de perspectiva. E sem dúvida, um daqueles momentos em que voce se sente presenciando a História. Milhares de anos da formação daquele monumento até o segundo em que você se permitiu estar ali.

 

casal no caminho de Stonehenge

casal no caminho de Stonehenge

Eu e Maria

Eu e Maria

Maria no caminho para Stonehenge

Maria no caminho para Stonehenge

cachorrinho de um dos visitantes da noite anterior esperando seus donos acordarem pra ir embora

cachorrinho de um dos visitantes da noite anterior esperando seus donos acordarem pra ir embora

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Li depois da viagem um artigo do NY Times onde pesquisadores descobriram que as pedras não teriam sido escolhidas ao acaso, mas de acordo com o som que emitem, um ruído parecido com o som metálico de um sino. Não explica o mistério de porquê a estrutura foi construída, mas é um  indício de que as pedras podem ter sido colocadas ali para sediar festividades desde o princípio.

OLD SARUM e CATEDRAL DE SALISBURY

Depois de Stonehenge seguimos para Old Sarum, uma colina com resquícios de ocupação em Salisbury de 3000 a.C. Lá você encontra as ruínas de um castelo típico dos desenhos infantis quando uma vala circunda o topo do castelo e o único acesso é atraves de uma ponte. Já imaginei crocodilos medievais vigiando o que um dia foi o ponto de partida da cidade, mas se teve crocodilo ou não já não posso afirmar. Esse buraco ao redor do terreno foi na verdade feito pelos saxões para se defenderem das invasões de vikings e normânicos.

Old Sarum vista de cima

Old Sarum vista de cima

Ao lado do castelo estão as ruínas da antiga catedral, que lembram as marcações no chão do filme Dogville, como quem vê apenas demarcado no solo o que um dia teria sido o salão principal, outro cômodo, escadas de acesso. Como o dia estava lindo, aproveitamos pra descansar na sombra de uma das árvores na colina, até percebermos que estava infestada de aranhas e resolvemos seguir para a cidade.

Old Sarum

Old Sarum

Old Sarum

Old Sarum

Old Sarum

Old Sarum

Pedindo informação aqui e ali, chegamos na atual Catedral de Salisbury, famosa por conter a maior parte das 17 cópias da Carta Magna. Ok, se você assim como eu não é um historiador, talvez assim como eu também, não lembra o que é uma carta magna, então assumo minha ignorância e divido minha minipesquisinha contigo 😉 A Carta Magna é um documento que de modo geral impediu a continuidade do poder absoluto na Idade Média, reconhecendo que os reis estavam sujeitos à uma lei. Um pontapé para um processo que nos levaria a criação de constituições.

 

Eu e Maria na Catedral de Salisbuty

Eu e Maria na Catedral de Salisbuty

jardim da Catedral de Salisbury

jardim da Catedral de Salisbury

Saímos de Salisbury, floridinha, bonitinha com cara de cidade de interior e pessoas simpáticas que te dão informação sorrindo e vão embora sorrindo, obviamente apaixonadas. Uma delícia de viagem, de um destino que muito provavelmente não teria feito se não fosse minha abuelita a me propor quando tem seus siricuticos de querer viajar. Me leve no guarda-chuva sempre que quiser, Mary Poppins!

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A feirinha dos achados

O despertador toca uma música pop -irritante repetidas vezes pra nos lembrar que eram 6 horas da manhã. O Miller rola de um lado, rola do outro, eu bem quietinha na minha esperando ele desligar a p…. do despertador, quando a Carol dá o ultimato:

– E aí Miller, voce vai ou vai pular fora do barco?

Tenho a impressão de que ela nao acharia tão ruim se ele amarelasse e todos os ositos cariñositos voltassem a dormir sem hora pra acordar, afinal tínhamos voltado de uma balada e dormido três míseras horas. Mas promessas de dedinho precisam ser honradas, e foi assim que uma voz preguiçosa de um Miller preguiçoso tal e qual confirmou que eles iriam pra feirinha dos Nanás.

Eu, que nao estava envolvida na promessa e tinha carta branca pra dormir até dizer chega, perdi o sono e resolvi seguir a trupe. Afinal, embora o horário fosse ingrato, o programa atiçava meu lado “Dora the explorer” garimpadora de roupas boas e baratas.

A feirinha dos Nanás é como chamamos carinhosamente uma feirinha de coisas usadas que fica na Cumberland Street North, pertinho da O’Connel Street, um quarteirão depois do Living Room, a partir das 6:30 am.

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Lá, senhoras e senhorzinhos de famílias que recebem ajuda do governo irlandês, expõe…expõe é uma palavra muito elegante…a verdade é que eles jogam mesmo, sem a menor organização, montes de roupas e cacarecos eletrônicos dos dois lados da calçada para vender por pechinchas. No inverno, segundo o Mi, a clientela usa os celulares pra procurar as pechinchas. Por que tão cedo? No idea.

Como eu conhecia os achados do Miller, sabia que era questão de sorte . O Miller, por sua vez, foi apresentado a essa feirinha de pulgas pela Mônica, frequentadora assídua e ótima negociante.

A estratégia ensinada por ela e seu pupilo, Miller, consiste em juntar o que eu gostava e o que a Carol gostava e encarnar o Muhamad negociador dentro de nós, com propostas do tipo “€3 per €5”. Outra super dica é que na falta de espelhos, tiramos fotos uma da outra pra saber se a roupa teve um caimento bom ou se o defunto era maior e não tem jeito.

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Para conter a lei de Murphy de que “quem não procura ou não pode gastar, é o que mais acha”, depois da quarta ou quinta peça fechamos os olhos e e não nos atrevíamos mais a perguntar “How much is it?”.

Fato é que eu e dona Carolina, nos fartamos. Sai de lá com dois casacos de frio por 4 euros cada, um roupão verde dos sonhos por 2 euros, mesmo preço de uma camisa jeans estilinho vintage e ainda arrematei um moletom estilo marinheiro (branco com listas vermelhas) por 1 eurito. Carol eu não sei, mas a sacola dela era maior que a minha.

Então, se você é um dos adeptos da filosofia “lavô tá nova”, super recomendo uma aventura pela feira dos Nanás, onde tênis nike, moletom adidas, sapatos de salto (muitos de gosto duvidoso), quinquilharias eletrônicas, casacos da vovó, roupas da Penneys, roupa com cara de usada, com cara de nova, suja, limpa, se embolam num harmônico caos.

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Esse casaquinho abaixo é outro achadinho de uma loja chamada Shotsy Vintage, que fica no Temple Lane South, Temple Bar. Paguei 25 euritos, mas super valeu. Lá as peças são super bem selecionadas e talvez também por isso um pouquinho mais carinhas.

 

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No balancê, balancê

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Eu, Ale, Carol e Miller no dia 13 de julho, vulgo meu aniversário

Acredito em horóscopo só quando leio coisas boas, mas resolvi chamar de inferno astral o momento em que como num efeito dominó, me vi sem emprego, sem lugar pra morar, vivendo as angústias de problemas de saúde com pessoas queridas, Madô (minha bike) com pneu furado e decidida a não engatar mais nenhuma marcha e um computador que me largou na mão de vez.

Aí quando bateu aquela vontade de me lamentar, pela primeira vez na minha vida talvez, juntando tudo o que chegar aos 25 deu pra aprender, levantei a cabeça e fui correr atrás de resolver o que podia e ser positiva pra o que não estava ao meu alcance solucionar. Conforme as coisas entravam nos eixos, a vontade de chorar e de me vitimizar foi passando ou talvez se transformando em risadas, piadas que passei a fazer sobre a arte de estar na merda.

Até que os vinte e tantos vieram, pra virar a página e celebrar minhas pequenas vitórias pessoais. Porque apesar de ter saído da casa dos meus pais ao 17, sempre vivi o vício da dependência emocional, colocando o peso dos meus problemas na conta dos outros e na hora do desespero, reagia me atirando no chão do supermercado da vida pra fazer o escarcéu que meus pais nunca me deixaram fazer durante a infância.

Tudo bem que certos defeitos a gente leva uma vida pra mudar um tiquinho, mas tenho pra mim, que sempre é tempo. Embora eu já tenha tentado justificar os meus “pondo na conta dos meus pais”, como também já tentei repetir frases do tipo “eu sou assim e que me aceitem”. Mas putz, como é bom mudar pra você, com toda a força que só o amor proprio é capaz.

Repito pra quem pergunta como vai a vida aqui, que é investimento, que o inglês é só uma das batalhas diárias, o mais bonito e árduo é o autoconhecimento, uma bagagem pessoal e que ninguém te tira. Repito porque na verdade, preciso reforçar isso até pra mim mesma as vezes. Afinal é duro pular fora da zona de conforto, mas tem seus ganhos.

bolinho na casa do Jorg

bolinho na casa do Jorg

Cresci anos em meses, descobri em mim forças que sempre achei bonitas nos outros, mas nunca achei que as veria em mim. Uma paz de espírito, um tal de estar bem comigo, de me perdoar pelas minhas falhas, sem deixar de fazer uma autoanálise. Por isso na minha retrospectiva pessoal, o Sérgio Chapelin poderia narrar que aos 25 eu já tinha aprendido a gostar de São Paulo, tinha feito o meu círculo social por lá e mantinha as boas e velhas amizades. Vivia um projeto a dois crente que era pra sempre, chegava em casa e era recebida pelos charminhos da Lola, minha gata, morria de medo de voltar pra casa a pé a noite, nao falava com meus pais, era angustiada, ansiosa e insegura.

Aos 26 eu descobri o mundo e como ele é bão, Sebastião! Mantenho as amizades que valem a pena, fiz novos e bons amigos alguns de outros cantos, sambando miudinho no inglês ou no espanhol. Voltei a falar com meus pais num processo de respeitar quem são e como são e sentir que isso é recíproco. Comprei uma bici achando que era só pra me deslocar e aprendi a amar o vento na cara e com ela volto a hora que quero sem medo e sem neuras. Encontro uns gatinhos soltos nas ruas de Dublin e faço um chamego pra acalmar a saudade da Lolinha,  e ainda nao fiz nem a metade das viagens que gostaria, mas tudo a seu tempo. A angústia, a ansiedade e a insegurança não me abandonaram, mas diminuíram, entramos numa política de boa convivência, ok vocês existem, mas sou eu que tô no controle.

E pondo tudo na balança, vejo que o saldo é positivo, porque mesmo depois dos perrengues passados, a escadinha rumos aos trinta, veio suave, veio bonita, fechando um ciclo, abrindo outro. Talvez seja esse período fora da minha zona de conforto, longe do meu país, do meu círculo social, da minha língua, da minha profissão, esse período fora, que eu não decidi quando termina e se termina…talvez seja eu, que decidi dar as caras, vir e me permitir esse aprendizado… só sei que tudo isso tem feito um bem, que suspeito estar vivendo o melhor momento da minha vida.

 

My English’s pearls – Minhas pérolas em inglês

Pois bem, estando cá há nove meses e tendo chego com um inglezinho intermediário nível mixuruca, muitas melhorias vieram – graaaacias – mas já deu pra fazer uma pequena coletânea de pérolas e confusões.

Já que como diria McLuhan, aquele lá dos tempos das aulas de comunicação da professora Silvia, quando um emissor passa uma mensagem, ele nunca tem garantias de que será entendido exatamente como se pretendia, pelo receptor. Pois é, o caso fica mais grave quando voce já começa falando errado na língua que você não domina. O lado bom é que além de virar “causo”, ajuda a fixar pronúncias e aprender vocabulário.

Esse é um post a pedido da minha irmã, Nina e Kalinka e quem mais gosta de aprender com os próprios erros e os alheios, como os meus. Então se você encontrar algum erro na minha eventual translation, perdoa ai e conta pra mim.

 

 

Roommate:
– What’s your plans today? Is a beautiful sunny day, no?
Me:
– Well, I don’t have plans yet! Really nice day, hasn’t clothes today
Roommate:
– HASN’T CLOTHES TODAY??? Ah, clouds!!! For one minute I thought you dont wanted to wear clothes today!

Irish friend:
– So, how is Madô (Madeleine, my bike)?
Me:
– Well, I have to fix her, one of the wheels is pierced or fart (flag or fade, nunca lembrava desses verbos pra dizer murcho) !
Irish friend:
– Fart? Your bicycle farts?

Me:
– I can’t sleeeeeep!
Arnaud:
– Close your eyes!
Me:
– This doesn’t solves!
Arnaud:
– Counting sheeps.
Me:
– I learnt that there’s not “sheeps”, you have to say just “sheep”. Like “fish”, there’s not “fishes”. I’m sure about that, my Irish teacher teached me.
Arnaud, my French friend, probably almost falling sleep:
– Ãh? Do you want “fish and chips”? *

*fish and chips é um típico prato que nada mais é que peixe adore e batata frita. “Chips” no inglês britânico é o equivalente pra batata frita que no inglês americano aprendemos “french fries”. Fato é que ou o Arnaud tava com muito sono ou a minha pronúncia maravilhosa pra explicar que não existe plural pra ovelha “sheeps” soou mesmo como “chips”.

My ex-boss:

– Luciana, do you picked up your change? (Talking about my payment)

Me:
– Change? No…(entendendo troco)
My ex-boss:
– My God! So, where’s the money…?! (Starting getting desperate)
Me:
– Let me explain. I picked up the money, all the money, but I didn’t know that I would have to give back a change…
Her husband:
– No! The confusion is because she told “change” and that’s a informal word to say money, cash…it’s not change, when you have to give back some money…
E foi assim que eu fiquei com o meu salário todo sem dar o troco pra ninguém porque afinal não tinha troco.

Me:

– wait a moment.

Kids:
– Lucy, you have to say “wait one minute”, cause “wait a moment” I can understand that you will do I wait you for a long time and not a short time, as you want to say.

Me: 

– Then, she broke up with me.

Roommate:

– She? Are you lesbian? *

* clássica confusão na hora de usar he – his, she-her…Até hoje conto umas histórias atravessadas de vez em quando.

 

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