Sobre estar só e bem

  Depois de um ano já não é mais novidade. Sempre há algo novo, claro, mas o país já não parece outro planeta, a cultura diferente parece mais assimilável e o idioma ainda que sempre tenha algo a ensinar já te permite manter uma conversa, mesmo que o pub cheio e o som ambiente desafiem os ouvidos. 

Depois de um tempo você já fez grandes amizades e abraçou alguns deles nas despedidas da vida que um intercâmbio apenas torna mais recorrente. Vai o amigo, fica o imenso carinho por ter tido a oportunidade de conhecê-lo, afeto que agora se acumula a outros que também precisam ser mantidos a distância. 

É tempo de encarar a saudade com mais leveza, o skype com a família já não é uma vez por semana, acontece quando os lados podem ou se encontram online. Os grupos de amizade e os amigos nas conversas por whatsapp não precisam ser respondidos apressadamente. Os pontinhos vermelhos das conversas em espera podem sim esperar. Não é descaso, nem desencontro muito menos desafeto. O amor continua no mesmo lugar é só menos apego porque um dos pés que ficou no Brasil passa a pisar firme em outro continente. É preciso estar onde teus pés te levaram e deixar que a mente exercite viver o agora.

É tempo de estar só e aprender a usufruir bem do próprio tempo. Algo que só se faz enfrentando o dissabor da solidão, um exercício diário de você com você mesmo, vezes árduo, vezes melancólico, até que no vira e mexe dos ponteiros se mostra doce. É que se ocupar de preencher os próprios vazios acalenta a alma e é um ganho pessoal. Como quem depois de percorrer grandes distâncias físicas, pouco a pouco desbrava um universo particular.

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Tempo de agradecer

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O tempo aqui eu contava em meses, no início apressada como quem não via a hora de voltar pra casa. Aos poucos Dublin foi se tornando querida pra mim, uma casa, um lar.

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Hoje completo um ano na Irlanda o que significa também um ano fora do Brasil. Um ano sem o convívio com amigos, sem poder encontrar minha irmã de tempos em tempos, sem rever meus pais com quem me reconciliei depois de anos de rompimento.

Lembro que entre todos os devaneios de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, a frase que mais me marcou desse livro foi: “o que a vida quer da gente é coragem”. E cada um sabe onde ela lhe pede.

Cheguei no outono passado, dava 4:30 da tarde e já estava tudo escuro. Não era só a cidade estranha, mas a língua, dava medo arriscar o inglês, frustrava muito não entender, não ser entendida. Mesmo que a infraestrutura, transporte público, educação no trânsito, problemas sociais aqui sejam mesmo de primeiro mundo, eu só conseguia me sentir perdida, uma estranha no ninho. Faltava tempo e boa vontade da minha parte pra encontrar a beleza em tudo o que me parecia pouco familiar.

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Vim pra estudar inglês, e nos quatro primeiros meses só fiz isso, numa rotina de pelo menos quatro horas na escola e mais uma a duas horas em casa, entre homeworks e estudos por contra própria. Um revival da gordinha CDF que fui nos tempos da 4ªD. Ok, se era a 4ªD mesmo, nem a Amanda e a Ju, minhas amigas da velha guarda vão lembrar.

Depois desse tempo, passei a me sentir mais confiante e senti falta de poder praticar mais o inglês, não só na sala de aula em conversações previsíveis. Então tava na hora de ir trabalhar, mas por aqui, como sou jornalista, trabalhar na minha área sem um ótimo domínio do inglês, é algo improvável. Logo, para a turma dos não europeus, com raras exceções você será uma aspirante a nanny, cleaner, entregador de jornal, kitchen porter ou algo do tipo.

Por isso, deixe seu orgulho de lado e vista a camisa. Abrace a empreitada, todo trabalho é digno e tem muito a ensinar. No meu caso, deixei o Brasil no meu melhor momento profissional, depois de uma dura jornada coordenando a pesquisa de um programa de televisão. Embora puxado, eu amei a experiência, mas sempre soube que na carreira o inglês era meu calcanhar de Aquiles e cedo ou tarde ia fazer falta ou me fazer estagnar.

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Foi assim que passei a enviar currículos pra cuidar de crianças, algo que sei fazer e faço com gosto. Chame de nanny, au pair, childminder…Tem vários jeitos e com algumas diferenças no que a família acorda contigo, mas em geral, nada mais é que ser babá.

Por pouco mais de três meses, cuidei da Ella, 2 anos e meio, do George com 6 e do Ben de 9. Desde o primeiro dia nos demos bem, uma sintonia nossa. A rotina, era pesada, pega todo mundo na escola, leva pra natação, pro tennis, pro futebol gaélico, pra aula de música, volta, agora faz comida, dá o jantar, bedtime, caramba acabou a semana pra começar tudo outra vez na segunda seguinte. “George não bate na Ella”, “Ben deixa a Ella usar o tablet”, “George espera um pouquinho, o jantar tá quase pronto”. Um piscar de olhos e alguém pode cair, começar a brigar, tomar o brinquedo da mão do outro. Deixei de cuidar deles com a sensação de dever cumprido e consciência de que fiz o meu melhor.

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E desde julho cuido de uma “Snow White” de 4 anos, a Lucy e sua irmã, “Cinderella”, que na verdade se chama Anna e tem um ano. É que a Lucy tem o cabelinho da Branca de Neve, curtinho e escuro e lindos olhos verdes. Já a Anna é uma loirinha de olhos azuis. Nossa relação é outro feeling desses que não se explica. Lucy é super carinhosa, adora livros e esta na fase dos “porquês”, enquanto a Anna, é uma menininha muito fofa e super fácil de cuidar.

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É assim que de segunda a sexta, oito horas por dia, treino o meu inglês e vou descobrindo novas palavras e expressões pra inserir no meu vocabulário. Fora os exercícios de improvisação, porque a qualquer momento você pode ter que explicar pra criança, a Lucy no caso, qual a diferença entre reflexo e sombra, porque é importante dizer por favor ou porque a irmã puxa os cabelos dela. Tanto que as vezes sinto falta do Telekid, personagem do Marcelo Tas no Castelo Rá-Tim-Bum, pra explicar essa infindável série de “Why?”, “Why”, “…but why?”.

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Foi assim que quando vi, passaram-se seis meses, depois oito, depois doze. E nesse meio tempo sempre que pude viajei, fui pra lugares que nem imaginava que iria, e é um tal de sentir-se um grãozinho de areia nesse mundão de Deus. Descobri o prazer de andar de bike e sentir o vento na cara, fiz amigos brasileiros e de outros cantos do mundo, exercitei o respeito ao próximo ao conhecer outras culturas através de uma conversa, uma comida, um costume diferente do meu. Disse até logo pra algumas pessoas sem saber quando e se voltarei a vê-los, aprendi a dar mais valor pra um dia de sol, um dia no parque, um dia de vida.

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Pois bem, estar aqui há 12 meses é sobreviver a saudade, ao frio, as crises de insegurança, a frustração de muitas vezes não saber se comunicar ou fazer isso com um vocabulário muito inferior do que eu gostaria. Sair da zona de conforto te faz crescer anos em meses e é uma bagagem de vida imensurável. Obrigada Dublin, Irlanda.

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Bray e Dalkey – Por isso, por ele, pelo bem que ele me faz

O Miller e o Dani são cu e calcinha, do tipo “onde a vaca vai o boi vai atrás”. Conheci as figuras no meu primeiro dia em Dublin, no ínicio de novembro, eles estavam na mesma acomodação estudantil em que fui parar. Logo eu e o Mi começamos a estudar juntos no intermediário e o Dani foi pro upper. Coleguinhas de classe, começamos a preencher as quatro horas diárias de convivência com fofoquinhas e péssimas observações da vida alheia.

Minha mãe diz que é o sonho de toda mulher ter um amigo gay, pois eu já encontrei o meu! A verdade é que o Miller foge a estereótipos, e com ele posso divagar entre o mundo gay e hetero sem preconceitos.

Sei que nos aproximamos em horas de dificuldade, quando um ombro amigo em um país estranho é raro e essencial. Pois eu tentei ser pra ele o melhor que eu podia extrair de mim e acredito que ele fez o mesmo.

E porque amigo só pra se lamentar é muito chato, nossa amizade também se fortaleceu nas muitas e boas risadas, whatsapps pra atualizar os baphos, confissões quentíssimas, que fariam os velhinhos irishs sentados ao redor de nós no Spair Negro da Dame Street corar suas bochechas rosas.

Foi assim que ele se tornou meu loiro, divo, Laura do carrossel, as vezes mais mulherzinha do que eu, as vezes com uma visão do sexo masculino que me faz compreender melhor o sexo oposto. E para nossa alegria, jamais vamos cair no tapa por machos, ele gosta dos fortinhos, altos, eu fico com barbudos, nerds, hippies.

Por isso, por ele, pelo bem que ele me faz que eu posto aqui as fotos do sábado que passamos juntos em Bray e Dalkey, duas regiões que fazem parte de Dublin mas que ficam mais afastadas e se parecem mais com vilarejos. Nesse dia eu precisava de companhia e ele foi a companhia perfeita, com um astral maravilhoso do mais alto ponto do seu looping geminiano, a todo tempo preocupado que eu tivesse um lindo dia e tivemos.

Como nem tudo é perfeito, o Dani foi também e fui apresentada a uma amiga deles, por sinal muito chata, como é mesmo o nome dela? Maira…? Haha…É bem isso só que ao contrário! Em Bray pudemos aproveitar um dia lindo, batendo um super papinho e logo a Maira já estava me achando mais legal que o Dani e o Miller juntos. Aham. Senta lá, Cláudia.

Em Dalkey, um Dani em chilique cósmico pela nossa demora, nos levou para escalar uma montanha interminável, onde o meu mal humor de fome quase entrou em ação e só se aquietou quando chegamos no topo. Lá demos de cara com uma paisagem linda que valeu o esforço dos asmáticos e fumantes presentes na excursão.

Depois de mil fotos em todas as posições e cenários solicitados pelo Miller, eu não poderia deixar de compartilhar algumas aqui. Aproveitando pra dizer que Mi, você é foda, um dos corações mais lindos que já tive a oportunidade de conhecer, e que na Irlanda, no Brasil ou onde quer que for, você já faz parte dos amigos incríveis que eu quero levar pra sempre comigo.

Em Dalkey

Em Dalkey

 

Bray

Bray

 

Eu e Miller

Eu e Miller

 

Dalkey

Dalkey

 

Miller, eu e Dani, Maira não gosta de foto então é a pessoa atrás da camera

Miller, eu e Dani, Maira não gosta de foto então é a pessoa atrás da camera

 

Bray

Bray

 

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