A feirinha dos achados

O despertador toca uma música pop -irritante repetidas vezes pra nos lembrar que eram 6 horas da manhã. O Miller rola de um lado, rola do outro, eu bem quietinha na minha esperando ele desligar a p…. do despertador, quando a Carol dá o ultimato:

– E aí Miller, voce vai ou vai pular fora do barco?

Tenho a impressão de que ela nao acharia tão ruim se ele amarelasse e todos os ositos cariñositos voltassem a dormir sem hora pra acordar, afinal tínhamos voltado de uma balada e dormido três míseras horas. Mas promessas de dedinho precisam ser honradas, e foi assim que uma voz preguiçosa de um Miller preguiçoso tal e qual confirmou que eles iriam pra feirinha dos Nanás.

Eu, que nao estava envolvida na promessa e tinha carta branca pra dormir até dizer chega, perdi o sono e resolvi seguir a trupe. Afinal, embora o horário fosse ingrato, o programa atiçava meu lado “Dora the explorer” garimpadora de roupas boas e baratas.

A feirinha dos Nanás é como chamamos carinhosamente uma feirinha de coisas usadas que fica na Cumberland Street North, pertinho da O’Connel Street, um quarteirão depois do Living Room, a partir das 6:30 am.

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Lá, senhoras e senhorzinhos de famílias que recebem ajuda do governo irlandês, expõe…expõe é uma palavra muito elegante…a verdade é que eles jogam mesmo, sem a menor organização, montes de roupas e cacarecos eletrônicos dos dois lados da calçada para vender por pechinchas. No inverno, segundo o Mi, a clientela usa os celulares pra procurar as pechinchas. Por que tão cedo? No idea.

Como eu conhecia os achados do Miller, sabia que era questão de sorte . O Miller, por sua vez, foi apresentado a essa feirinha de pulgas pela Mônica, frequentadora assídua e ótima negociante.

A estratégia ensinada por ela e seu pupilo, Miller, consiste em juntar o que eu gostava e o que a Carol gostava e encarnar o Muhamad negociador dentro de nós, com propostas do tipo “€3 per €5”. Outra super dica é que na falta de espelhos, tiramos fotos uma da outra pra saber se a roupa teve um caimento bom ou se o defunto era maior e não tem jeito.

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Para conter a lei de Murphy de que “quem não procura ou não pode gastar, é o que mais acha”, depois da quarta ou quinta peça fechamos os olhos e e não nos atrevíamos mais a perguntar “How much is it?”.

Fato é que eu e dona Carolina, nos fartamos. Sai de lá com dois casacos de frio por 4 euros cada, um roupão verde dos sonhos por 2 euros, mesmo preço de uma camisa jeans estilinho vintage e ainda arrematei um moletom estilo marinheiro (branco com listas vermelhas) por 1 eurito. Carol eu não sei, mas a sacola dela era maior que a minha.

Então, se você é um dos adeptos da filosofia “lavô tá nova”, super recomendo uma aventura pela feira dos Nanás, onde tênis nike, moletom adidas, sapatos de salto (muitos de gosto duvidoso), quinquilharias eletrônicas, casacos da vovó, roupas da Penneys, roupa com cara de usada, com cara de nova, suja, limpa, se embolam num harmônico caos.

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Esse casaquinho abaixo é outro achadinho de uma loja chamada Shotsy Vintage, que fica no Temple Lane South, Temple Bar. Paguei 25 euritos, mas super valeu. Lá as peças são super bem selecionadas e talvez também por isso um pouquinho mais carinhas.

 

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PLAYLIST

“Hey, Nana, você nunca fez mal nenhum
Mas eu sei o tanto que ficou pra trás”

Roll the dice

If you’re going to try,
go all the way.
Otherwise, don’t even start.

If you’re going to try,
go all the way.
This could mean losing girlfriends,
wives,
relatives, jobs and
maybe your mind.

Go all the way.
It could mean not eating for 3 or 4 days.
it could mean freezing on a
park bench.
it could mean jail,
it could mean derision,
mockery,
isolation.

Isolation is the gift,
all the others are a test of your
endurance, of how much you really want to do it.

And you’ll do it
despite rejection and the worst odds
and it will be better than anything else
you can imagine.

If you’re going to try,
go all the way.
There is no other feeling like
that.
You will be alone with the gods
and the nights will flame with fire.

Do it, do it, do it.
Do it.

All the way,
all the way.

You will ride life straight to
perfect laughter, its
the only good fight
there is.

———————————————-
Jogue os dados

Se você vai tentar,
vá com tudo.
Senão, nem comece.

Se você vai tentar,
vá com tudo.
Isso pode fazer você perder namoradas,
esposas, parentes, trabalhos e
talvez sua cabeça.

Vá com tudo.
Talvez você não coma por 3 ou 4 dias.
Talvez você congele, sentado na praça.
Isso pode significar cadeia, menosprezo, insultos, isolamento.

Isolamento é o presente,
todos os outros são testes de sua resistência,
do quanto você realmente quer fazer isso.

E você o fará,
Apesar da rejeição e dos piores infortúnios,
E isso será melhor do que qualquer coisa que você possa imaginar.

Se vai tentar, vá com tudo..
não há outro sentimento como esse.
Você estará sozinho, com os deuses
e as noites queimarão como fogo.

Faça, faça, faça.
Faça.

Vá com tudo, vá com tudo.
Você cavalgará a vida numa reta
para a gargalhada perfeita,
essa é a única boa luta que existe.

– Bukowski

 

 

 

23

Jul

PLAYLIST

 

“Nobody feels old at the museum
Nobody feels cold in the wintergardens”

No balancê, balancê

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Eu, Ale, Carol e Miller no dia 13 de julho, vulgo meu aniversário

Acredito em horóscopo só quando leio coisas boas, mas resolvi chamar de inferno astral o momento em que como num efeito dominó, me vi sem emprego, sem lugar pra morar, vivendo as angústias de problemas de saúde com pessoas queridas, Madô (minha bike) com pneu furado e decidida a não engatar mais nenhuma marcha e um computador que me largou na mão de vez.

Aí quando bateu aquela vontade de me lamentar, pela primeira vez na minha vida talvez, juntando tudo o que chegar aos 25 deu pra aprender, levantei a cabeça e fui correr atrás de resolver o que podia e ser positiva pra o que não estava ao meu alcance solucionar. Conforme as coisas entravam nos eixos, a vontade de chorar e de me vitimizar foi passando ou talvez se transformando em risadas, piadas que passei a fazer sobre a arte de estar na merda.

Até que os vinte e tantos vieram, pra virar a página e celebrar minhas pequenas vitórias pessoais. Porque apesar de ter saído da casa dos meus pais ao 17, sempre vivi o vício da dependência emocional, colocando o peso dos meus problemas na conta dos outros e na hora do desespero, reagia me atirando no chão do supermercado da vida pra fazer o escarcéu que meus pais nunca me deixaram fazer durante a infância.

Tudo bem que certos defeitos a gente leva uma vida pra mudar um tiquinho, mas tenho pra mim, que sempre é tempo. Embora eu já tenha tentado justificar os meus “pondo na conta dos meus pais”, como também já tentei repetir frases do tipo “eu sou assim e que me aceitem”. Mas putz, como é bom mudar pra você, com toda a força que só o amor proprio é capaz.

Repito pra quem pergunta como vai a vida aqui, que é investimento, que o inglês é só uma das batalhas diárias, o mais bonito e árduo é o autoconhecimento, uma bagagem pessoal e que ninguém te tira. Repito porque na verdade, preciso reforçar isso até pra mim mesma as vezes. Afinal é duro pular fora da zona de conforto, mas tem seus ganhos.

bolinho na casa do Jorg

bolinho na casa do Jorg

Cresci anos em meses, descobri em mim forças que sempre achei bonitas nos outros, mas nunca achei que as veria em mim. Uma paz de espírito, um tal de estar bem comigo, de me perdoar pelas minhas falhas, sem deixar de fazer uma autoanálise. Por isso na minha retrospectiva pessoal, o Sérgio Chapelin poderia narrar que aos 25 eu já tinha aprendido a gostar de São Paulo, tinha feito o meu círculo social por lá e mantinha as boas e velhas amizades. Vivia um projeto a dois crente que era pra sempre, chegava em casa e era recebida pelos charminhos da Lola, minha gata, morria de medo de voltar pra casa a pé a noite, nao falava com meus pais, era angustiada, ansiosa e insegura.

Aos 26 eu descobri o mundo e como ele é bão, Sebastião! Mantenho as amizades que valem a pena, fiz novos e bons amigos alguns de outros cantos, sambando miudinho no inglês ou no espanhol. Voltei a falar com meus pais num processo de respeitar quem são e como são e sentir que isso é recíproco. Comprei uma bici achando que era só pra me deslocar e aprendi a amar o vento na cara e com ela volto a hora que quero sem medo e sem neuras. Encontro uns gatinhos soltos nas ruas de Dublin e faço um chamego pra acalmar a saudade da Lolinha,  e ainda nao fiz nem a metade das viagens que gostaria, mas tudo a seu tempo. A angústia, a ansiedade e a insegurança não me abandonaram, mas diminuíram, entramos numa política de boa convivência, ok vocês existem, mas sou eu que tô no controle.

E pondo tudo na balança, vejo que o saldo é positivo, porque mesmo depois dos perrengues passados, a escadinha rumos aos trinta, veio suave, veio bonita, fechando um ciclo, abrindo outro. Talvez seja esse período fora da minha zona de conforto, longe do meu país, do meu círculo social, da minha língua, da minha profissão, esse período fora, que eu não decidi quando termina e se termina…talvez seja eu, que decidi dar as caras, vir e me permitir esse aprendizado… só sei que tudo isso tem feito um bem, que suspeito estar vivendo o melhor momento da minha vida.

 

My English’s pearls – Minhas pérolas em inglês

Pois bem, estando cá há nove meses e tendo chego com um inglezinho intermediário nível mixuruca, muitas melhorias vieram – graaaacias – mas já deu pra fazer uma pequena coletânea de pérolas e confusões.

Já que como diria McLuhan, aquele lá dos tempos das aulas de comunicação da professora Silvia, quando um emissor passa uma mensagem, ele nunca tem garantias de que será entendido exatamente como se pretendia, pelo receptor. Pois é, o caso fica mais grave quando voce já começa falando errado na língua que você não domina. O lado bom é que além de virar “causo”, ajuda a fixar pronúncias e aprender vocabulário.

Esse é um post a pedido da minha irmã, Nina e Kalinka e quem mais gosta de aprender com os próprios erros e os alheios, como os meus. Então se você encontrar algum erro na minha eventual translation, perdoa ai e conta pra mim.

 

 

Roommate:
– What’s your plans today? Is a beautiful sunny day, no?
Me:
– Well, I don’t have plans yet! Really nice day, hasn’t clothes today
Roommate:
– HASN’T CLOTHES TODAY??? Ah, clouds!!! For one minute I thought you dont wanted to wear clothes today!

Irish friend:
– So, how is Madô (Madeleine, my bike)?
Me:
– Well, I have to fix her, one of the wheels is pierced or fart (flag or fade, nunca lembrava desses verbos pra dizer murcho) !
Irish friend:
– Fart? Your bicycle farts?

Me:
– I can’t sleeeeeep!
Arnaud:
– Close your eyes!
Me:
– This doesn’t solves!
Arnaud:
– Counting sheeps.
Me:
– I learnt that there’s not “sheeps”, you have to say just “sheep”. Like “fish”, there’s not “fishes”. I’m sure about that, my Irish teacher teached me.
Arnaud, my French friend, probably almost falling sleep:
– Ãh? Do you want “fish and chips”? *

*fish and chips é um típico prato que nada mais é que peixe adore e batata frita. “Chips” no inglês britânico é o equivalente pra batata frita que no inglês americano aprendemos “french fries”. Fato é que ou o Arnaud tava com muito sono ou a minha pronúncia maravilhosa pra explicar que não existe plural pra ovelha “sheeps” soou mesmo como “chips”.

My ex-boss:

– Luciana, do you picked up your change? (Talking about my payment)

Me:
– Change? No…(entendendo troco)
My ex-boss:
– My God! So, where’s the money…?! (Starting getting desperate)
Me:
– Let me explain. I picked up the money, all the money, but I didn’t know that I would have to give back a change…
Her husband:
– No! The confusion is because she told “change” and that’s a informal word to say money, cash…it’s not change, when you have to give back some money…
E foi assim que eu fiquei com o meu salário todo sem dar o troco pra ninguém porque afinal não tinha troco.

Me:

– wait a moment.

Kids:
– Lucy, you have to say “wait one minute”, cause “wait a moment” I can understand that you will do I wait you for a long time and not a short time, as you want to say.

Me: 

– Then, she broke up with me.

Roommate:

– She? Are you lesbian? *

* clássica confusão na hora de usar he – his, she-her…Até hoje conto umas histórias atravessadas de vez em quando.

 

A última flor de Lácio e o Vô e a vó

trabalho do Pedro Gabriel

trabalho do Pedro Gabriel no projeto Eu me chamo Antonio

Um amigo austríaco, que manda muito bem no português, dia desses me veio com essa…Que é muito difícil falar as palavras vô, vó, voo e vou. Pra exemplificar a semelhança sonora, me fez falar a espécia de um trava língua:

– O vovô e a vovó vão voar

Isso é o que eu acho mais legal de se aprender um idioma, como falar português é natural pra mim, jamais que eu ia pensar que essas quatro palavrinhas poderiam ser tão difíceis de serem pronunciadas e identificadas por um estrangeiro.

Outro dia desses, também voltei a parar pra pensar sobre a Língua Portuguesa. Estou eu no Portobello Canal em Dublin 8 aproveitando um dia de folga e no caminho seguindo o canal, encontro um desses simpáticos senhorzinhos irishs, que muito provavelmente percebendo que eu não era daqui, me perguntou:

– Where are you from?

– I’m Brazilian, can I help you?

– Please, can you repeat this phrase for me? “A última flor de Lácio, $@#$% e bela”!

Quem disse que eu entendia a penúltima palavra? Lascou, não conhecia a frase! O que era Lácio? Que ignorante que eu sou, o que ele vai pensar de mim, que sou uma brasileira ignorante, péssima representação da classe…

Nada como um Google, o Sr que tudo sabe, pra descobrir que é um trecho da poesia  chamada “Língua Portuguesa” em que Olavo Bilac homenageia a nossa língua dizendo: “A última flor de Lácio, INCULTA e bela”.

Pois bem que fuçando um pouquinho mais descobri que a última flor de Lácio é uma metáfora sobre o Português ter sido a última língua latina formada a partir do latim vulgar – falado pelos soldados da região italiana do Lácio. Inculta e bela, interpreto como  informal e ao mesmo tempo bonita.

Ainda cheia de remorso pelo velhinho saber algo que diz respeito a minha língua e que eu não sei, me contento com o comentário da minha diva, deusa da Copa, cabrita amada, Kalinka Schutel: “Ah Lu, ele tem a aposentadoria toda pra saber tudo sobre a flor de Lácio”. Pois meu amigo austríaco complementou, o importante é a troca, agora você sabe. Não é que é? Agora sei e divido aqui, caso alguém mais venha a ser parado por um velhinho irish interessado em Língua Portuguesa.

 

 

 

 

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