Como fuder um grande amor

Prefiro não fazer as contas, mas íamos completar cinco anos esse ano. Paixão a segunda vista, a chave do apartamento e um convite pra morar com ele quatro meses depois de nos conhecermos na esquina da São João com a Ipiranga, sim a mesma que só Caetano eternizou.
Aceitei o convite e fui pra são paulo, rompi com meus pais que não apoiavam a decisão. Com ele aprendi a ter sonhos e a lutar por eles, ter ambições, sair da zona de conforto. Me apaixonei pela nossa cumplicidade, pela nossa vida a dois, pelo som do seu violão. Aprendi muito mais sobre música, filmes e literatura ao seu lado. Passamos por crises, uma, duas, três, tantas vezes. No segundo ano juntos falei do meu sonho de viajar, o convidei. Ele não quis, já falava inglês e nossos cinco anos de diferença faziam com que estivesse em outro momento de sua carreira, quisesse se estabelecer. Mas me deu total apoio, inclusive financeiro. Disse então que o que seria um ano longe, perto de todos os outros anos que queria passar ao meu lado.
Dois anos depois depois de meses difíceis, ambos trabalhando muito, seu pai doente, eu prestes a viajar nos despedimos no aeroporto. Ele não deu uma data mas prometia me visitar!
Meu primeiro mês vivendo fora foi de muitas crises pessoais e no relacionamento. Eu sem ele, sem meus remédios, aprendendo novamente a viver sozinha, o idioma era só um dos meus obstáculos. Aí foi aos poucos, o desgaste, a falta de demonstração de carinho da parte dele. Um dia pedi cinco minutos de conversa no whatsup, afinal o skype insistia em não funcionar. Disse que não tinha, um amigo chegava em seu apartamento de praia e tinha que ir recebê-lo, era seu último final de semana na praia que eu entendesse que ele queria aproveitar. Cinco minutos fariam falta? Foi ali que senti que algo ia mal, e assim como os erros não vem só de um lado, os esforços não podem vir de um lado só também. Dali o nosso amor fudeu no pior sentido da interpretação. Ele se afastou, eu dei o seu espaço. Não queria bancar a namorada louca e sufocante. Um dia escrevi, o amor mudou, conheceu alguém? Demorou dias pra me responder, e o abismo entre nós só aumentando. Aí ele deu sinal de vida, disse estar mal, deprimido, confuso, sem vontade pelas coisas que gostavam, mas não não havia ninguém e sim estava certo dos seus sentimentos. Então ta, vamos levando, te dou a distância que precisar, quem sabe ele sente minha falta? Cada dia a noite escolhia uma música a dedo, Caetano, the strokes, frank sinatra. Só não mandei “sua estupidez” na versão da Gal, porque achei que era muito direto. Preferi canções que fossem um modo subjetivo de dizer eu te amo, estou aqui, você é importante. Aí escolhi Do you love me?, que havia ouvido na trilha sonora de um filminho francês. Mandei. No outro dia me chamou pra conversar, disse que pensou direito e percebeu que não estava mais certo dos seus sentimentos, que precisávamos nos afastar. Então isso e um termino?, perguntei. Não se opôs, apático e frio como vinha sendo, deixou que o termino fosse parar na minha boca. Um bom pé na bunda sempre tem uma pitada de insensibilidade. Chorei, tentei fazer a forte, é só um momento de confusão, minha esperança disse pra tentar me consolar. Falei com a minha irmã, ela tentou por panos quentes, pedi que então ligasse pra ele, medisse a febre. Ela constatou que era definitivo. Coração bateu dolorido agitado no peito tentando escapar. Não! Gritei. Não queria acreditar, quem quer? Pedi pra falar com ele de novo. Foi relutante. Mendiguei, me humilhei, pedi pra seguirmos juntos, se não estava certo então que ao menos me permitisse que eu estivesse ao seu lado, pra quem sabe o lado mais ou menos certo dos seus sentimentos lembrasse que eu existia. Não teve jeito, a voz até se alterou como se o meu pedido fosse repulsivo, disse então que isso significava que ele não me amava mais. Pedi que dissesse, se você verdade, que dissesse. Eu não te amo mais!, ele disse. Essas palavras ainda repito mentalmente pra me fazer entender porque não posso mais amá-lo.
O amor da minha vida, o maior amor que eu já senti tem que acabar, não porque eu queira, mas porque ele não quis mais e com isso não há mais sentido amar sozinha. Nossos planos a dois, nosso cachorrinho, nossa casa, nossos possíveis filhos, nossas realizações pessoais comemoradas a dois indo parar no abismo que se abriu sobre nos! Um vomito bem vomitado após um crise de choro, quem dera saísse de mim rápido aquele amor.
Ninguém sabe a dor que se instalou em mim, há dias ouço consolos e outras histórias de corações partidos. Há dias só sei pensar na minha dor, cada um sabe da sua. A primeira noite acordei assustada lembrando que algo havia acontecido e que não lembrava o quê, quando lembrei quis voltar pro sonho, não tinha mais sonho, a febre tinha me acordado pra me fazer vagar a noite a remoer lembranças. Disse não ter ninguém, disse que a crise levou nosso relacionamento por água abaixo e que está muito perdido, que éramos muito dependentes e precisamos nos ver como indivíduos. Dependentes todos os casais são, ninguém é uma ilha. Quantos casais nos olharam horrorizados quando falávamos da minha viagem? Que dependência tamanha é essa se nos propusemos a um desafio que poucos casais teriam coragem? Nunca fomos o tipo de usar uma foto nossa no facebook, de passar senhas de redes sociais pra um controlar o outro, de proibir balada só porque um não tava do lado do outro. Que dependência é essa? Ele ainda balbucia que está disposto a uma conversa quando eu voltar pro Brasil. Que conversa? alguma brincadeira de mau-gosto pra me fazer ter esperanças? Uma pessoa que prometeu vir me ver e terminar um relacionamento de quatro anos em cinco minutos no skype, o que ainda teria pra falar comigo se já disse o mais fatídico, que não me ama mais?
Invejo a apatia dele, invejo o fato de estar certo que não me ama. Esse é o lado mais fácil, eu sei já dei esse pé na bunda, ele proporciona alívio e uma certa pena do outro lado que parte querendo ficar.
Pois eu resolvi ficar em Dublin, onde tenho ao menos um objetivo. O Brasil fica pra mais tarde, onde eu vou pegar minha gatinha que ficou com ele, uma trouxa de roupas e muita coragem pra recomeçar.
Só deus sabe as besteiras que me vem a cabeça e a dor de cabeça de um choro que parece não ter fim. O mal-estar da dor que se transforma em física, do amor que está em ti quando não devia estar.
Se escrevo é pra tentar sufocar a esperança que me angustia e o sentimento que tem que ter fim. Um passo de cada vez que um dia eu chego lá.

 

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